A Revista de domingo do jornal O Globo de 1/08/2010 publicou um artigo da colunista Martha Medeiros (“A Fé de uns e de outros”) sobre casamento gay e adoção de crianças por pares homossexuais. Segue um texto que escrevi em resposta, aproveitando para demonstrar que uma posição contrária a dela não é defensável apenas com o recurso da fé, já que ela parece acreditar que são principalmente os católicos “praticantes” que habitam no “pântano” da falta de lógica. Apesar de ser católico, escrevi um texto que poderia facilmente ter vindo de um ateu.
Segue:
Homossexualismo, tabu, casamento e adoção: uma resposta à Martha Medeiros
A recente liberação do casamento gay na Argentina acalorou o debate em torno do tema não só na terra de Maradona, mas também aqui no Brasil. Eu sou católico, me esforço por ser o que alguns chamam de “praticante”, ainda que eu saiba que isso é uma opção que se faz diariamente, com muito sangue e suor. Ao abrir a boca sobre o tema sei que corro o risco de acordar com uma passeata gay na minha portaria, pois a liberdade de expressão no Brasil e no mundo está radicalmente prejudicada no que diz respeito a esse assunto. Também faço a ressalva de que minha opinião não é a opinião da Igreja; eu nunca poderia dizer isso, pois só a Igreja docente tem o direito de falar pela Igreja, e eu não sou nem bispo, nem Papa.
Indo direto ao assunto, se um homem quer deixar sua herança para outro, se quer incluí-lo no seu plano de previdência privada, não há nada que se possa ou que se deva fazer. Cada um faz o que quiser com seu dinheiro. No entanto, se por casamento gay entende-se que os dois indivíduos do mesmo sexo adquiram junto à sociedade todos os direitos de um casal heterossexual, entre eles o de adotar uma criança, bem, sobre isso não há como se calar.
O que é o homossexualismo? Os próprios gays não se entendem. Há menos de dez anos o movimento gay falava em “opção sexual”. Notando que esse termo não satisfazia a suas pretensões políticas e sociais, resolveram mudar e dizer que é “orientação sexual”, mas “orientação” é algo que se pode mudar, e isso é inadmissível para o movimento gay, que passou a tratar o tema como “natural”, sem deixar muito claro se é uma questão genética ou não. E a cada mudança de ares do discurso homessexual oficial, toda a imprensa e a intelectualidade média politicamente correta embarca na terminologia, e a adota como um dogma, um mantra, sobre o qual não se pode refletir, apenas entoar e repetir. Eu, como católico, tenho mais liberdade para pensar sobre o assunto do que os próprios gays e simpatizantes, que mudam de discurso ao sabor das circunstâncias, mas não admitem que ninguém pense sobre isso.
Ou seja, na prática, pensar sobre o que motiva o homossexualismo, sobre as suas verdadeiras causas, sobre as suas consequências é algo que, hoje em dia, é permitido apenas aos movimentos gays e àqueles que eles autorizam a tanto. Qualquer iniciativa dissonante é punida com perseguição judicial, ostracismo profissional (no caso de psicólogos, por exemplo) e uma enxurrada de outras “sanções”, quando não de ameaças e perseguições diretas, no caso de vozes mais públicas. Poucas vezes na históra da humanidade houve tanto veto sobre uma discussão quanto agora. O homossexualismo hoje é um severo tabu.
Mas qual é o grande fato a respeito do homossexualismo? O homossexual é alguém que, tendo nascido homem ou mulher, tem a sua libido direcionada para indivíduos do mesmo sexo. Isso é fato. Mas o sujeito nasce objetivamente homem, ou objetivamente mulher. Isso também é fato. Ou seja, existe uma variação tal entre a sexualidade subjetiva e o gênero objetivo daquela pessoa, que, considerando as palavras em seu sentido mais puro, podemos falar sem problemas em “distúrbio ou desvio de comportamento”. Há uma utilização clara para os órgãos sexuais humanos, ninguém pode negar que eles foram feitos para se “encaixar”. Bem, um ateu até poderia negar que eles “foram feitos”, mas certamente não poderia negar que eles se encaixam, e que esse encaixe tem uma função e uma conseqüência óbvia. O pênis é naturalmente e por excelência o órgão para fertilização da mulher, através da vagina. É abusar do direito à cegueira recusar-se a enxergar que pênis e vagina são “peças” que se encaixam com resultado fecundo. Se juntarmos isso ao fato de que a maior parte de homens e mulheres tem sua libido direcionada justamente ao ato sexual hétero, onde suas partes se “encaixam” fecundamente, podemos julgar que, em função do “design” (intencional ou acidental, não vem ao caso) e da estatística, existe um comportamento sexual esperado, e outro inesperado. Tudo isso me parece muito claro e até científico, sem pretensão a nenhum juízo de valor, apenas uma constatação.
Percebam que nessa linha de argumentação eu não chamei em momento algum o dado religioso. E não pretendo fazê-lo até o fim. Nesse assunto, a verdade por si só é capaz de nos libertar, a verdade racional; não há necessidade de recorrermos à verdade revelada.
Bem, as coisas não surgem assim do nada. Se você é crente vai crer que o comportamento sexual é algo infundido em nós por Deus. E o mesmo Deus que nos criou com órgãos que sugerem um comportamento sexual X, não nos infundiria um um comportamento sexual Y, isso não faria sentido. Se você é ateu, então mais do que os crentes deve acreditar em alguma causa para os comportamentos sexuais; provavelmente acredita em algo vagamente darwiniano. Ou seja, não faz diferença a fé de uns e de outros, ambos tem o direito de se questionar sobre as causas, seja por ser gay, seja por ter alguém próximo que é gay, seja por querer bem a alguém que é gay, seja por que é curioso mesmo, você tem o direito de se questionar.
Vamos então pensar em termos de “orientação sexual”. Se é orientação, então alguém ou algo orientou. Nesse caso, temos que imaginar que o homossexualismo é fruto de um processo educacional, de algum trauma ou de alguma lacuna na criação. Lacuna, sim, pois, do estrito ponto de vista da educação humana, é de se esperar que uma boa educação sexual seja aquela que direcione a sua libido para o seu gênero objetivo, para o seu “instrumental sexual” e para a fecundidade (o ato sexual humano também tem objetivo reprodutivo, alguém nega?). Uma educação que propositalmente direcione a libido do indivíduo para um claro conflito com seu próprio corpo natural é uma má educação. Uma educação que acidentalmente coloque o indivíduo em conflito com o corpo é uma educação também deficitária. Mal comparando, é como se você, a partir de uma determinada idade, resolvesse inverter o processo alimentar natural e passasse a empurrar o alimento pelo ânus, expelindo pela boca através do vômito. Ainda mal comparando, poderíamos traçar um paralelo entre a homossexualidade e a bulimia, ou a anorexia. Ou seja, um distúrbio de comportamento. Você pode estar satisfeito consigo mesmo, você pode não querer mudar. Mas o Estado, responsável pela tutela e pelo bem estar de crianças para adoção, não deveria deixar aquela criança com alguém que, tendo um distúrbio comportamental, uma sexualidade em conflito com o corpo, optasse por não se tratar. Veja, não estou propondo uma “cura” para o homossexualismo, não tenho competência para isso, mas certamente acho que pode sim existir um tratamento. Não há também uma cura definitiva para o alcoolismo, mas isso não impede que alcolátras procurem um tratamento e uma forma de conviver com o problema. O mesmo para a cleptomania, por exemplo. Justifico, assim, o motivo pelo qual acredito que não se deva deixar a instituição do casamento — e os direitos que com ela se adquire — a mercê de um distúrbio comportamental, de um comportamento conflituoso com o próprio corpo.
Mas os gays não falam mais em “orientação”. Agora dizem que é natural. Alegam em seu favor que os animais também fazem isso o tempo todo. Esquecem que esse argumento abre precedentes estranhos, pois gatos e cães são conhecidos por matarem — e as vezes comerem — suas primeiras crias assim que nascem, por fazerem sexo com seus pais, filhos e irmãos, por lutarem até arrancar pedaços por um parceiro sexual, etc, etc. Logo, todos esses comportamentos animais deveriam ganhar a sanção do Estado para os seres humanos também. Mas eu vivi anos na roça. Por minha casa, quando menino, passaram muito animais. Convivi com mais de uma dezena de gatos, mais de meia dúzia de cães, alguns passarinhos, uma cabra, sem contar os bichos de meus amigos, vizinhos e familiares. Com tanta experiência, não posso negar, já vi cães machos em situações curiosas. Mas também já os vi tentando copular com a perna de algum visitante. Mas nunca vi cadela lésbica. Nem gata. Nunca vi gata em ato sexual com outra gata, nem cadela em ato sexual com outra cadela, nem égua em ato sexual com outra égua, enfim, deu para entender. Da mesma forma, já vi uma boa quantidade de especialistas em comportamento animal dizendo que se um animal macho tenta copular com um outro macho, ou ainda com a perna de alguém, ele está, sim, agindo de maneira desviante. E já vi especialistas resolverem o problema com medidas simples. Ora, se os gays usam os animais como exemplo de homossexualismo natural, deveriam aceitar que, se um animal pode ser tratado desse distúrbio de comportamento, os seres humanos também poderiam. Mas, ao contrário dos psicólogos de animais, o psicólogo de gente que propor algo desse tipo certamente terá problemas sérios e poderá até perder o registro profissional. Mas vamos esquecer um pouco os bichos.
Considerando que seja mesmo uma questão natural, ela deveria então ser tão tratável como o Parkinson. Ora, alguém realmente acha que o Estado deveria conceder a guarda de uma criança a quem, sofrendo de Parkinson, se recusasse terminantemente a receber tratamento? Essa pessoa deveria ser presa? Não! Deveria perder o direito de decidir o que fazer com seus bens? Também não! Mas deveria adotar uma criança? Certamente não.
Quem por acaso ler este texto pode argumentar que boa parte das associações de psicologia mundo afora não aceitam mais definir o homossexualismo como um distúrbio. Ora, essas entidades são os principais alvos de movimentos organizados e geralmente optam pelo que é politicamente mais seguro, não pelo que é mais próximo da verdade. Se em algum momento as anoréxicas se reunirem numa organização forte o suficiente para fazer pressão política, as entidades especializadas vão provavelmente retirar a anorexia da lista de distúrbios alimentares. Mas o fato, fato mesmo, é que um homossexual tem uma libido em conflito com seu corpo natural, e negar isso é tapar o sol com a peneira e negligenciar uma questão importante. Sancionar isso oferencendo crianças para pares gays adotarem já é uma irresponsabilidade que envolve a vida de um terceiro.
Sobra nesse assunto um ponto a abordar: independente de ser “orientação” ou “natural”, não há nada que nos impeça de usar em favor da pedofilia os mesmos argumentos que usamos sobre o homossexualismo. Ou seja, um pedófilo é alguém que tem a libido direcionada para o lugar errado, para crianças. Afinal, animais também fazem isso. Estou sugerindo que a pedofilia seja liberada ou que o homossexualismo seja criminalizado? Claro que não! Existe uma diferença óbvia que eu nem preciso explicar, que diz respeito à consensualidade e à capacidade de decidir dos indivíduos envolvidos. Mas nada, nada neste mundo (a não ser a pressão política dos grupos homossexuais), justifica que a OMS, por exemplo, classifique o homossexualismo como algo perfeitamente normal, e a pedofilia como uma “perversão sexual”, como “desordem mental”, desvio e etc. Ora, ambos são casos de desvio da libido; quem tiver olhos, veja… Em termos estritamente científicos — não jurídicos e/ou penais –, o que vale para um, vale também para o outro.
Por último, um lamento. Lamento muito pelos homossexuais. No passado eram oprimidos por não poderem falar sobre o assunto, que era considerado apenas do ponto de vista da moralidade. Hoje, são oprimidos pelos seus próprios pares, são impedidos de pensar com liberdade sobre si mesmos, são duramente censurados se ousam imaginar a busca de um tratamento. Ou seja, são vítimas de si mesmos.
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PS:
Recebo um comentário, entre os muitos que me acusam de idiota, burro, ilógico e etc, onde um certo Diogenes diz que minha lógica só vai até onde convém, pois eu esqueço de que, diferente da bulimia, da anorexia ou do Parkinson, o homossexualismo não é um mal de saúde, não impede uma vida biologicamente sadia. Mesmo ignorando que o tempo todo deixei claro que estava “mal comparando” e não propondo comparações exatas, não posso deixar de chamar atenção para o fato de que uma vida biologicamente sadia não é APENAS o que importa. A cleptomania e a mitomania também não impedem o transcorrer de uma vida biologicamente sadia, nem por isso deixam de ser distúrbios para os quais se busca tratamento psicológico. E veja bem: eu nem propus, em momento algum, que os gays fossem OBRIGADOS a procurar tratamento. Isso nunca se passou pela minha cabeça. Apenas considero arbitrária e sem fundamento algum a patrulha dos movimentos gays sobre quem pretenda propor um tratamento e sobre quem deseja procurá-lo.
Mas o mesmo Diogenes que me acusa de ser lógico só até onde me convém, dá provas cabais de que só sabe ler até onde lhe convém. Ele me garante que sou preconceituoso por sugerir que duplas de homossexuais não são a escolha ideal para garantir uma educação integral para uma criança adotada e, como prova disso, cita trecho de um estudo com crianças adotadas por homossexuais que diz:
“Este grupo de pesquisa, quase uniformemente, relata que não encontra nenhuma diferença notável entre crianças criadas por pais heterossexuais e aquelas criadas por casais homossexuais, e que há evidências que pais homossexuais possuem tanta competência e efetividade quanto pais heterossexuais.”
Mas conclui me ensinando:
“Se você tiver o trabalho de ler e interpretar, a pesquisa mostra que, pelo contrário: filhos de casais homossexuais tendem a ser mais liberais em determinados assuntos que tangenciam tabus da sexualidade e são menos atrelados a normas e padrões sociais (…)”
Ora, mas isso é uma obra-prima do dar razão a quem discorda! Segundo o Diogenes, o mesmo estudo que garante que não há diferença alguma entre crianças criadas por casais hetero ou homossexuais, também conclui que “filhos de casais homossexuais (…) são menos atrelados a normas e padrões sociais”. Obrigado, Diogenes, por sua colaboração! Podemos agora, graças a um estudo científico e acima de suspeitas (segundo você), afirmar que filhos de homossexuais tendem mais à sociopatia, que uma sociedade que permita a adoção de crianças por gays tem um futuro com maior probabilidade de desordem e caos, com cidadãos insubordinados às normas sociais. Por exemplo: não avançar o sinal vermelho é uma norma social. Não dirigir alcoolizado também. Respeitar os mais velhos, os professores, honrar compromissos e etc, são todas normas sociais, as quais, segundo o estudo citado pelo Diogenes, as crianças adotadas por homossexuais são menos atreladas. Aparentemente, eu, que era preconceituoso, agora tenho motivos que nem tinha imaginado para ter razão. Eu tinha apenas questionado a capacidade dos gays de dar educação afetiva e sexual para uma criança adotada. Agora o Diogenes me informa, como quem me questionasse, que há mais razões para se preocupar…
Ótimo artigo. Somente não sei se este evidente desvio da libido é algo suficiente para impedir uma atuação parental sadia. O que acha? Fiquei a imaginar se sua comparação com o Parkinson não foi algo exagerada…
Obrigado, Gonçalves.
Não costumo publicar os comentários que recebo aqui no blog, guardo-os para mim. Mas, quanto ao teu, vou quebrar a regra, pois tem uma pergunta importante que merece ser respondida, por, talvez, não ter sido suficientemente esclarecida no texto.
Você pergunta se o evidente desvio da libido é algo suficiente para impedir uma atuação parental sadia. Eu respondo com outra pergunta: havendo alguma possibilidade de evitar, você permitiria que uma anoréxica convicta, que se orgulhasse de sua própria anorexia e até fizesse algum proselitismo a esse respeito, fosse responsável pela educação alimentar de seu filho? Acho que a resposta é não, correto? Da mesma forma, como permitir que dois homossexuais convictos, satisfeitos com sua sexualidade, sejam responsáveis pela educação integral de uma criança? A resposta é simples assim. Se é um evidente desvio da libido, como você admite, é de se esperar que o homossexual convicto não tenha condições de dar para essa criança uma educação sexual e afetiva sadia. É complicado transmitirmos o que não temos. Por isso, o Estado, que tem a obrigação de procurar as melhores condições possíveis para o desenvolvimento daquela criança, não pode entregá-la em adoção para um par de gays. Normalmente vem em resposta a essa afirmação: “mas então você prefere que a criança passe a vida num horrendo orfanato?” Bem, se os orfanatos são horrendos, esse é outro problema. A incapacidade do Estado em cumprir bem suas obrigações, e a incapacidade da sociedade de fiscalizar o Estado, não são motivos para conceder a guarda de crianças para o primeiro que pedir. Um erro não justifica o outro. Mal comparando, seria como dizer que, por termos um sistema penal ineficiente, deveríamos soltar todos os presos.
Sobre a comparação com o Parkinson, sim, foi algo exagerada. Não quis, com ela, afirmar que o homossexual possui uma doença degenerativa. Mas o Parkinson não decorre de causas sociais, nem psicológicas. Sob esse aspecto, ele pode ser considerado “natural”, não pode? Dessa forma, o que quis mostrar é que o argumento da “naturalidade” do homossexualismo, independente de ser falacioso (pois para mim é falacioso), não é suficiente para que os movimentos gays imponham uma restrição à busca de um tratamento. Se a tendência ao homossexualismo nasce com o indivíduo, não significa que só por isso seja boa. Se você nascesse com uma tendência a ser bulêmico, ou a de qualquer outra forma agir contra a sua natureza, nem por isso estaríamos convencidos de que a bulimia é boa. Aliás, não poucos estudiosos dizem que o alcoolismo, por exemplo, tem raízes genéticas. Nem por isso deixamos de buscar tratamentos para os alcoólatras, não é verdade? Foi nesse sentido que usei a comparação com o Parkinson, não para sugerir que o homossexualismo seja algum tipo de doença degenerativa. Se eu fosse detalhar tudo ao máximo no texto, deixaria de ser um ensaio. Por isso, conto com a boa vontade dos leitores, mesmo correndo o risco de ser mal compreendido às vezes.
Grande abraço!