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Não vi o filme e acho que não vou ver. Entre as pessoas que conheço e viram, nenhuma elogiou a história, mas muitas elogiaram a produção e o 3D.

O primeiro filme dessa nova geração 3D que fui ver foi UP, da Pixar. Fiquei imensamente impressionado, pois a Pixar soube aproveitar o 3D para transformar uma boa história, até bastante poética, numa verdadeira experiência sensorial, algo inesquecível e muito belo. Mas UP não dependia do 3D; ele continuaria sendo uma boa história sem esse recurso. Seria uma boa história até se virasse vinil. Wall-E,  também da Pixar, não poderia virar vinil, pois a beleza do filme está 50% na sua expressão visual, tanto que nos primeiros 40 minutos do filme quase não há fala. Mas isso de maneira alguma desmerece Wall-E, isso só o torna ainda mais genuinamente um ótimo fruto do cinema. Comentei certa vez que se UP era um poema, Wall-E era uma pintura (ou pelo menos um bela fotografia em movimento).

Já Avatar, tudo que vejo me leva a crer que não passa de uma versão longa metragem daqueles filmes 3D da década de 80, onde as pessoas gritavam com medo do trem sair da tela. Enquanto as pessoas estiverem indo ao cinema esperando ver exatamente isso, tudo bem, cada um gasta seu dinheiro como quer. Mas quando a propaganda (no pior sentido da palavra), tenta transformar esse besteirol num filme, no “filme mais aguardado dos últimos anos”, aí eu acho que um limite é transposto, o limite do bom senso. É a pior expressão possível do cinema: a história mais idiota do mundo sendo contada com os melhores e mais avançados recursos.

A noite do mortos vivos

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Vejo há pouco no telejornal uma reportagem na qual um daqueles grupetos de deficientes físicos se unem numa ‘cadeirada’ em favor da pesquisa com células-tronco embrionárias. Não posso pensar em outra coisa senão naqueles filmes de zumbis, em que, tendo perdido seus próprios cérebros, os mortos-vivos saem em busca de umas cabeças para mordiscar. Como para tudo hoje é preciso fazer ressalvas, óbvio é que ficar paraplégico deve ser muito ruim, que não é algo que se deseje para ninguém, nem é sofrimento que se menospreze. Se os zumbis de fato existissem, também causariam justificados sentimentos de compaixão. Causar compaixão é o único motivo pelo qual a mídia publica imagens de cadeirantes sempre que vai tratar do assunto células-tronco. Causar compaixão e, ao mesmo tempo, repulsa por todo aquele que se oponha a esse tipo de pesquisa, que, sugerem, poderia fazer andar os aleijados, fazer com que os cegos enxerguem, com que os surdos ouçam e todo tipo de coisa tipicamente milagrosa. Imagino que quando zumbis vierem a existir, haverá manifestações deles em frente ao Congresso, defendendo o direito de chupar nossos cérebros com fins terapêuticos. E será causador de repulsa todo aquele que se opuser ao alívio do sofrimento desses pobres coitados. A reportagem que vi concluia muito bem toda essa história. Dizia que a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil era uma ‘vitória sobre aqueles setores que defendiam a vida a qualquer custo em todas as suas fases’. O único problema é que dizia isso com júbilo. Na mesma reportagem, eis que surge Marcelo Yuka, vítima preferencial dos bandidos da zona norte carioca, a dizer que era hipocrisia se opor a pesquisas com embriões. Nem se dava conta que, ao dizer isso, justificava os que, para escapar de seus próprios sofrimentos materiais, quase o mataram durante um assalto. É a lei de evitar o sofrimento a qualquer custo, mesmo que seja a custa do menosprezo pela vida.

A voz do povo é a voz …

Depois do caso do arcebispo dom José Cardoso Sobrinho, muitos sites andam por aí divulgando enquetes com resultados favoráveis à liberação do aborto no Brasil. Ora, essa questão serve muito bem para entendermos os limites da democracia. Seria justo deixar uma questão dessas nas mãos da opinião pública? Quantos ‘eleitores’ brasileiros tem realmente acesso a informações verdadeiras e isentas sobre essa questão? Quantos não votariam a favor ou contra o que quer que seja movidos apenas pela simpatia ou adoração por um ator que tivesse participado de uma das campanhas, quantos não votariam sem pensar em algo tão grave e pouco tempo depois se arrependeriam, sem chance de ‘trocar de opinião’, de voltar atrás? E se, de uma hora para outra, as enquetes começarem a sugerir que a maioria do povo é favorável ao assassinato de velhos e de mendigos, ou que todos passaram a achar que o estupro é uma prática socialmente aceita, considerando a debilidade mental de quem o comete? Há limites para a democracia?

Dois posts atrás eu falava – ou melhor, o Papa e o Olavo falavam – sobre a relação entre o bem, o belo e o verdadeiro. Eu, na verdade, só puxei a sardinha para o lado da liturgia. No post seguinte, no qual eu temerariamente criticava a esperança depositada por Ortega y Gasset na arte de vanguarda do século XX, entrei rapidamente no assunto da arte medieval. Assim que publiquei o último, lembrei de um trecho que unia tão bem esses dois assuntos que eu não poderia deixar de transcrevê-lo. É uma pequena parte de São Bernardo e a Arte Cisterciense*, do historiador George Duby:

“Uma arte. É preciso interrogarmo-nos primeiramente sobre o sentido e sobre a função que Bernardo de Clairvaux e seus contemporâneos atribuíam ao que assim chamamos. Na época, a significação do termo era bastante ampla: ele designava todo processo – manual, instrumental ou intelectual – capaz de transformar uma matéria bruta, de domesticá-la, de torná-la cada vez mais apta a usos cada vez mais refinados. As artes eram todos os meios de domar o natural, de elaborar e de promover uma cultura. (…) Os empregos da palavra ‘arte’ já manifestam, pois, que os homens desse tempo não distinguiam nenhuma descontinuidade ao longo de uma cadeia que, das operações mais imediatamente utilitárias, termina nos domínios em que a ética e a estética se confundem. Todavia, é nesta extremidade, na região governada por necessidades nitidamente distintas e muitas vezes até inversas das que dominam a existência quotidiana, que se instalam os equivalentes do que são para nós, propriamente, as obras de arte. Encaremos estas obras como elementos de festa, dispostos por conseguinte nesta outra província do comportamento em que os gestos de gratuidade irrompem periodicamente para compensar os que, no correr dos dias, a necessidade de sobreviver impõe.

Gratuidade: o termo nos vem naturalmente ao espírito, que tudo julga em função do lucrativo. Mas ele é impróprio. Já que a festa – e a arte, que constitui seu elemento maior – são operações equilibrantes, tão necessárias quanto as que pretendem contrabalançar e que não são mais livres. (…)

A festa – e com ela a obra de arte – é, com efeito, tentativa de romper, de transgredir os limites que separam o mundo comum, banal, o mundo visível, do invisível, do ‘outro mundo’. Este é o seu objetivo. (…) A festa é um chamado às forças benéficas. E a arte também. O que explica que o belo tenha sido percebido pelos homens do século XII como o claro, o luminoso, o brilhante. A obra de arte surge do escuro. Ela o renega. Ela é um jorro em direção da luz, isto é, da mais sensível manifestação do divino. Através dela se realiza a junção entre o céu e a terra, assim como entre o ético e o estético. Pois o belo se liga ao bom, ao verdadeiro, ao puro.”

Duby, um dos maiores medievalistas de todos os tempos, é, entre os maiores, certamente um dos mais interessados pelo tema da arte, sobretudo pela sua função social, campo de estudo exaltado como promissor e útil pelo próprio Ortega no ensaio referido no post anterior. No texto do historiador, quando se fala em festa inclui-se também, e talvez até principalmente, o culto a Deus, a festa religiosa e, por que não, o ofício, o sacramentum**. A arte, principalmente quando nos referimos àquela que liga o belo ao bom e ao verdadeiro, é aquela produzida para a festa, que ambientava a festa, é a que se produzirá a partir daquela época nas grandes catedrais: as esculturas, os vitrais, os objetos cerimoniais, as iluminuras que ilustravam os livros sagrados, o canto que se cantava durante os ofícios, e até os próprios edifícios. Essa é a grande arte medieval, através da qual o Senhor torna-se crível,*** feita para deixar nas almas humanas uma profunda impressão.****

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* DUBY, George. São Bernardo e a Arte Cisterciense, tradução de Roberto Leal Ferreira, São Paulo, Martins Fontes, 1990.

** Não usei esse termo por pedantismo. Foi apenas para evitar um anacronismo, já que na época, segundo contam os especialistas no assunto, os latinos não usavam o termo “liturgia”. Para designar o que hoje chamamos de liturgia, usavam “sacramentum”, “opus”, “ritus”, “misterium”.

*** “O Senhor torna-se crível pela magnificência da santidade e da arte, que explodem dentro da comunidade crente, mais do que pelas astutas escapatórias que a apologética elaborou para justificar os lados obscuros de que abundam, infelizmente, os acontecimentos humanos da Igreja.” (RATZINGER, A Fé em Crise? O Cardeal Ratzinger se interroga, 1985).

**** “Aristóteles, em linguagem mais técnica, dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador.” (OLAVO DE CARVALHO, Apeirokalia, 1998).

É difícil ler Ortega e não se deparar com algum trecho memorável, digno de citação. Em “A Desumanização da Arte” (um título bastante enganador, vale avisar), ensaio em que o espanhol aponta a arma certa para o alvo errado*, encontro uma tirada para anotar e guardar na carteira:

Dove si grida non è vera scienza (onde se grita não há verdadeira ciência), dizia Leonardo da Vinci; Neque lugere neque indignari, sed intelligere (nem lamentar, nem se indignar, mas compreender), recomendava Spinoza. Nossas convicções mais arraigadas, mais indubitáveis são as mais suspeitosas. Elas constituem o nosso limite, nossos confins, nossa prisão. Pouca coisa é vida se não bate pé um afã formidável de ampliar as suas fronteiras. Vive-se na proporção em que se anseia viver mais. Toda obstinação em nos mantermos dentro do nosso horizonte habitual significa fraqueza, decadência das energias vitais. O horizonte é uma linha biológica, um órgão vivo do nosso ser; enquanto gozamos de plenitude, o horizonte emigra, dilata-se, ondula elástico quase ao compasso da nossa respiração. Ao contrário, quando o horizonte se fixa, é que se anquilosou e que nós ingressamos na velhice.”

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* Só para não deixar a minha crítica muito vaga, explico rapidamente o que me desagrada no ensaio. Em primeiro lugar, Ortega se deixa levar por uma noção vulgar de elitismo (vejam que paradoxo!), bem diferente daquela que seria apresentada um pouco mais tarde no capítulo “Vida nobre e vida vulgar“, em “A Rebelião das Massas”. Essa confusão fica bem clara na esperança depositada por Ortega na “nova arte” (o ensaio é de 1924, revisto e ampliado numa edição de 1925), uma verdadeira esperança de restauração da ordem, de restauração da distinção entre homem nobre e homem vulgar:

“(…) a arte jovem contribui também para que os ‘melhores’ se conheçam e se reconheçam entre o cinzento da multidão e aprendam a sua missão, que consiste em ser poucos e ter que combater contra muitos.” [eis um dos muitos tiros certos apontados para o alvo errado]

“Aproxima-se o tempo em que a sociedade, desde a política até a arte, voltará a se organizar, segundo se deve, em duas ordens ou categorias: a dos homens egrégios e a dos homens vulgares. Todo mal-estar da Europa irá desembocar e se curar nessa nova e salvadora cisão.” [eis uma esperança infundada e uma previsão equivocada]

Vã esperança essa, que fez um mestre da previsão histórica errar tão feio. Esperança advinda do simples fato da nova arte ser incompreensível para o povo. Ora, não mora aí grande vantagem, em parte porque o “povo” que não compreendia ou não se interessava por compreender os códigos visuais da arte de vanguarda não corresponde exatamente à “massa”, da qual o próprio Ortega falará mais tarde, “massa” que logo se empenharia em fingir que entende a novidade para não ‘dar na pinta’ de estar vendo o rei nu; e em parte porque dominar esses códigos, provenientes de concepções filosóficas mais ou menos débeis, não é de maneira alguma um fator distintivo de excelência, da mesma forma que não o seria dominar toda a filosofia de um Sartre, igualmente inacessível e incompreensível para o comum dos homens. Entre uma arte excelente e uma arte esquisita mora uma grande diferença. E Ortega, ao tomar a sociedade medieval como exemplo de sociedade binária, dividida entre nobres e plebeus, e por conseqüência produtora de duas artes, uma idealista e “artística” (nobre) e outra realista e satírica (popular), nos dá uma pista para compreender a diferença entre a excelência e a esquisitice. Por mais que o plebeu medieval não “praticasse” a arte nobre e excelente, ele a reconhecia como superior e lhe prestava homenagem. E o homem-massa, nos ensina Ortega, não reconhece nenhuma instância superior. Ora, se a “nova arte” a que se refere Ortega foi em seguida rapidamente assimilada ao mundo das massas, aceita como um novo padrão, foi porque o simples desinteressou-se por completo da arte, e o homem-massa, o homem-médio, a adotou como sua e própria, nunca como superior. Não há, portanto, a sadia distinção apontada por Ortega, não há arte nobre e arte plebéia.

Em segundo lugar, que mais ou menos complementa o primeiro, em “A Desumanização da Arte” Ortega julga lidar com um protótipo de “arte pura” quando na verdade lida com um tipo de arte que só se faz compreender por manifestos. Onde mora a pureza humorística de uma piada que precisa de explicação? Talvez no mesmo lugar em que mora a pureza artística de uma arte que precisa de manifestos.

Mas não se enganem, eu não os desencorajo a ler “A Desumanização da Arte”. Nunca é perda de tempo ler Ortega, e comprova-o o trecho que aparentemente motivou este post.

Sem essa de ‘beleza é opcional’. Façamos uma sopa: 500gr de metafísica com duas pitadas de estética. Se a estética é o estudo do belo e o belo se manifesta na forma, pensar em beleza como coisa superficial é pensar com uma cabeça de pré-socrático. Depois de Aristóteles e da ‘causa formal’, achar que forma é coisa secundária é retroceder uns 3 mil anos no pensamento humano e achar, de repente, que a água é o princípio de todas as coisas. Se você é conservador, já concorda comigo, se é moderninho, não vai querer ser tão retrógrado assim. Três mil anos, faça-me o favor…

O bom capitalismo liberal não me deixa mentir. Na hora de buscar um diferencial, de tornar um produto mais desejável, o projetista corre atrás da beleza que, como diz o jargão, agrega valor. Mas nem só de objetos palpáveis vive a beleza. Há beleza nas coisas e também beleza nos atos. Há ações grandiosas e grandes sacrifícios que por si são belos e há ações que dependem de uma certa reverência para serem minimamente belas. O alimentar-se, que à primeira vista é o ato de satisfazer a um animalesco instinto, pode ser humanizado, no melhor sentido do termo, com um mínimo de reverência; e pode ser quase divinizado com um mínimo de abstinência. A recente mania de enologia está aí como prova do que digo. Quando eu tomo um vinho, posso, no máximo, soltar uns grunhidos que expressem satisfação ou desgosto, mas os entendidos fazem disso uma arte e um ritual. E o ritual é a grande sacada da humanidade para não voltar a andar de quatro, se é que já andou um dia.

Todo mundo sempre entendeu isso de maneira mais ou menos certa. Mesmo o homem mais simples – e em certos casos principalmente o homem mais simples – sempre reconheceu que algumas coisas são dignas de reverência e que algumas outras devem ser reverenciadas por obrigação e justiça. E reverência e ritual implicam quase sempre em algum grau de beleza. De meados do século XX para cá, porém, alguns homens que reverenciam o vinho e que só compram canetas se forem bonitas, julgaram que a reverência era algo dispensável no Santo Sacrifício da Missa, na presença de Nosso Senhor, de Deus. Julgaram que essas coisas podiam ser como festas de quintal, com tapinhas nas costas e ‘parabéns pra você’. E eis que se instaurou o caos que vemos hoje nas paróquias católicas mundo afora, eis que surgiram as guitarras, os violões, as baterias e os pandeiros – ah, os pandeiros… E com os pandeiros, os padres sem batina, as comunhões de pé e na mão e outras coisas mais que fariam cair os poucos cabelos de São Tomás, sujeito racional que viveu na legítima época das luzes, a época das luminosas catedrais góticas. E para que vocês não pensem que eu sou o único insensato e reclamão a maldizer o pandeiro, deixo o link para um excelente texto de Dietrich Von Hildebrand: The Case for the Latin Mass.

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