Dois posts atrás eu falava – ou melhor, o Papa e o Olavo falavam – sobre a relação entre o bem, o belo e o verdadeiro. Eu, na verdade, só puxei a sardinha para o lado da liturgia. No post seguinte, no qual eu temerariamente criticava a esperança depositada por Ortega y Gasset na arte de vanguarda do século XX, entrei rapidamente no assunto da arte medieval. Assim que publiquei o último, lembrei de um trecho que unia tão bem esses dois assuntos que eu não poderia deixar de transcrevê-lo. É uma pequena parte de São Bernardo e a Arte Cisterciense*, do historiador George Duby:
“Uma arte. É preciso interrogarmo-nos primeiramente sobre o sentido e sobre a função que Bernardo de Clairvaux e seus contemporâneos atribuíam ao que assim chamamos. Na época, a significação do termo era bastante ampla: ele designava todo processo – manual, instrumental ou intelectual – capaz de transformar uma matéria bruta, de domesticá-la, de torná-la cada vez mais apta a usos cada vez mais refinados. As artes eram todos os meios de domar o natural, de elaborar e de promover uma cultura. (…) Os empregos da palavra ‘arte’ já manifestam, pois, que os homens desse tempo não distinguiam nenhuma descontinuidade ao longo de uma cadeia que, das operações mais imediatamente utilitárias, termina nos domínios em que a ética e a estética se confundem. Todavia, é nesta extremidade, na região governada por necessidades nitidamente distintas e muitas vezes até inversas das que dominam a existência quotidiana, que se instalam os equivalentes do que são para nós, propriamente, as obras de arte. Encaremos estas obras como elementos de festa, dispostos por conseguinte nesta outra província do comportamento em que os gestos de gratuidade irrompem periodicamente para compensar os que, no correr dos dias, a necessidade de sobreviver impõe.
Gratuidade: o termo nos vem naturalmente ao espírito, que tudo julga em função do lucrativo. Mas ele é impróprio. Já que a festa – e a arte, que constitui seu elemento maior – são operações equilibrantes, tão necessárias quanto as que pretendem contrabalançar e que não são mais livres. (…)
A festa – e com ela a obra de arte – é, com efeito, tentativa de romper, de transgredir os limites que separam o mundo comum, banal, o mundo visível, do invisível, do ‘outro mundo’. Este é o seu objetivo. (…) A festa é um chamado às forças benéficas. E a arte também. O que explica que o belo tenha sido percebido pelos homens do século XII como o claro, o luminoso, o brilhante. A obra de arte surge do escuro. Ela o renega. Ela é um jorro em direção da luz, isto é, da mais sensível manifestação do divino. Através dela se realiza a junção entre o céu e a terra, assim como entre o ético e o estético. Pois o belo se liga ao bom, ao verdadeiro, ao puro.”
Duby, um dos maiores medievalistas de todos os tempos, é, entre os maiores, certamente um dos mais interessados pelo tema da arte, sobretudo pela sua função social, campo de estudo exaltado como promissor e útil pelo próprio Ortega no ensaio referido no post anterior. No texto do historiador, quando se fala em festa inclui-se também, e talvez até principalmente, o culto a Deus, a festa religiosa e, por que não, o ofício, o sacramentum**. A arte, principalmente quando nos referimos àquela que liga o belo ao bom e ao verdadeiro, é aquela produzida para a festa, que ambientava a festa, é a que se produzirá a partir daquela época nas grandes catedrais: as esculturas, os vitrais, os objetos cerimoniais, as iluminuras que ilustravam os livros sagrados, o canto que se cantava durante os ofícios, e até os próprios edifícios. Essa é a grande arte medieval, através da qual o Senhor torna-se crível,*** feita para deixar nas almas humanas uma profunda impressão.****
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* DUBY, George. São Bernardo e a Arte Cisterciense, tradução de Roberto Leal Ferreira, São Paulo, Martins Fontes, 1990.
** Não usei esse termo por pedantismo. Foi apenas para evitar um anacronismo, já que na época, segundo contam os especialistas no assunto, os latinos não usavam o termo “liturgia”. Para designar o que hoje chamamos de liturgia, usavam “sacramentum”, “opus”, “ritus”, “misterium”.
*** “O Senhor torna-se crível pela magnificência da santidade e da arte, que explodem dentro da comunidade crente, mais do que pelas astutas escapatórias que a apologética elaborou para justificar os lados obscuros de que abundam, infelizmente, os acontecimentos humanos da Igreja.” (RATZINGER, A Fé em Crise? O Cardeal Ratzinger se interroga, 1985).
**** “Aristóteles, em linguagem mais técnica, dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador.” (OLAVO DE CARVALHO, Apeirokalia, 1998).